Contos

A Reconciliação

"Lembra-te de mim Senhor, quando entrares no teu reino".
"Em verdade te digo, ainda hoje estarás comigo no paraíso".
Diálogo mais estranho nunca se travou no mundo do que este, de cruz a cruz, entre dois
moribundos.
"Lembra-te de mim", quem pede apenas uma gota de amor no meio de um inferno de dores não é
homem mau. O homem intimamente mau maldiz os seus sofrimentos e os autores dos mesmos. O
homem mesquinho pede libertação dos tormentos ou aceleração da morte.
O ladrão na cruz pede apenas uma lembrança, um pouco de amor. Pede uma migalha de aquilo cuja
falta o tornara celerado, perverso e cruel. Desde pequeno, queria ele ser bom, mas os homens o
fizeram mau, porque lhe negaram compreensão e amor. Deu um passo em falso e as leis dos
homens o condenaram como malfeitor, a companhia perversa do cárcere induziu a ser mau a quem
queria ser bom. E quando terminou a sua pena, andou pelo mundo com o estigma de criminoso e
nunca mais encontrou entre os "homens honestos" quem lhe desse uma migalha de amor.


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