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O Poço de Plutão

Eu agora pequeno, apenas passando o tempo, me debrucei na grama à beira de um poço aberto sobre um monte e olhei lá para baixo certo do que veria. E o que enxerguei na realidade foi somente a beira de um poço de terra batida com alguma vida crescendo na umidade e na luz do sol que ali ainda estava.

Logo fiquei imaginando o que teria lá na escuridão, e pensei, ah se eu fosse grande desceria para olhar de perto e então joguei uma pedra para ver quão era o poço profundo.

E aumentou ainda mais minha pequenez quando nem o estampido ouvi da pequena pedra batendo no que achava ser água gelada lá no fundo.

Ali deitado olhando imaginei com pavor que poderia haver um dragão lá embaixo ou seria a porta de um reino de gente feia terrível que morava nas entranhas da terra.

Mas vidrado no que parecia ser meu reflexo na própria escuridão pensei – Preciso ver o que tem lá no fundo, mas o medo ...o medo...pensei Ahh se eu tivesse uma lanterna.

Talvez com sua luz poderia ver algo e lembrei que meu Pai tinha uma lanterna e ele sempre me dizia – Filho esta luz é para dias sem luz.

Então tinha que me levantar e voltar a minha casa para procura-la e com muito esforço, pois minhas pernas estavam adormecidas, e que lentamente de pé me pus.

E no caminho à casa a passos minúsculos tentava lembrar onde meu Pai guardava a lanterna importante, mas não conseguia de jeito algum lembrar.

Entrei na casa empurrando com muito esforço a porta emperrada e lembrei de minha Mãe me ensinando a noite na cama que quando eu tivesse um problema chamasse meu anjo assim : “Anjinho da guarda meu bom amiguinho guiai me sempre pelo bom caminho” e ele vai te ajudar. E na hora em um estalo lembrei que meu Pai guardava a Luz em uma prateleira bem alta em uma caixa de ferramentas fechada a chave.

Parei de pé em frente aquela enorme estrutura cheia de pequenas reentrâncias cada uma delas com algo importante do Pai e mais uma vez estanquei de medo, aquele medo de quem sabe.

Subir aquilo era tão difícil quanto encarar o poço sobre o monte e me vi mais uma vez inerte e ai ela, sempre ela, minha Mãe, parecia estar do meu lado, me abraçando e me ensinando. Mas é claro, como não pensei antes, preciso de uma escada e se ela for comprida o suficiente posso subir pegar a lanterna e depois joga-la no poço e descer fácil...fácil...cantando.

A escada estava ali a mão ..sempre esteve...só precisava ter coragem e subir...coragem.. queria muito conversar com meu Pai...meu herói e Rei que venceu a todos e a tudo.

Queria conversar com ele como antigamente quando sentava em seu colo e ele me dizia o que eu era e o que deveria fazer quando no escuro.

Como senti que ele nunca me deixou, o invoquei de dentro do lugar mais dentro e denso de mim mesmo e algum tempo depois, não me faltava mais nada.

Peguei a escada coloquei na prateleira sem esforço e subi como se tivesse feito isso a vida toda, na verdade as vidas todas passadas, cada qual como um degrau da escada.

Lá em cima repousava uma caixa com meu nome escrito sobre ela, abri e dentro vi a lanterna e um bilhete: “A bateria desta lanterna é a sua fé”.

Desci com o farolete, arrastei a escada, as duvidas e as culpas e no caminho de subida até o poço tudo isso desapareceu das minhas costas e olhei meus pés.

Agora limpos, o único peso que eu sentia era o da Luz que carregava, cheguei no poço e joguei a escada, acendi a luz e, ou a escuridão era muito densa ou minha luz é que era muito fraca.

Nunca abandonado por meu Pai só poderia ser problema na bateria e enquanto descia orei as orações que sabia quando, pois percebi que a Luz foi aumentando e sem parar, desci...desci...desci até que acabou a escada.


Mas ainda assim não estava no fundo e então tive a certeza daquilo que sempre soube...neste poço eu teria que me jogar de corpos e alma.

E então me joguei e, cai...cai...cai...mas não senti dor alguma, quando enfim estatelei no fundo, coloquei-me de pé novamente, após um tempo que pareceu a eternidade.


Pude ver que o que havia ali era somente agua ..tão pura.. linda.. lembrei de meu batismo, tantos, mas quando apertei os olhos: a realidade.

Depositado no solo bem mais abaixo havia muita sujeira, algumas grandes, outras minúsculas escondidas em um lodo espesso e velho. Pensei - não vou me mexer, não posso, tenho que ficar imóvel.

Senão vou revolver minhas profundezas e perder a beleza da água, quente, o conforto e prazer como na barriga da minha mãe. Quando ainda na duvida se subia ou não um pouco mais acima para um olhar mais sóbrio.


Um cajado desce da boca do poço e mexe em todo o fundo como uma batedeira e toda sorte de entulhos e animais adormecidos afloram a superfície, horrendos e famintos e tentam me devorar e a si mesmos, fujo, nem penso.

Olho para cima e um Senhor sem idade segurando a ponta do cajado que em sua ponta encrusta uma lua e dentro dela o universo ri, gargalhadas, como dono do tempo.

E antes de recolher seu cajado e ir, me diz - Agora volte lá e limpe tudo com cuidado, depois de limpo, as letras e os números os conte e ai sim sua lanterna brilhará além do seu poço e do meu monte.

Baruk Cruz


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