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Perseu e Medusa

Jaz, fixando o céu noturno, suspira sobre o enevoado cume de um monte; embaixo, há um tremular
de terras distantes. O seu horror e a sua beleza são divinos. Sobre seus lábios e suas pálpebras ousa
a formosura como uma sombra: irradiam dela, ardentes e embaciadas as agonias da angústia e da
morte que, embaixo, se debatem.
Não é tanto o horror, mas a graça a empedrar o espírito do observador, sobre quem se cinzelam os
lineamentos daquela face morta, até que os seus caracteres penetram-lhe, e o pensamento se turva; é
a melodiosa tinta da beleza, sobreposta às trevas e ao esplendor da punição que torna humana e
harmoniosa a impressão. E de sua cabeça, como se fosse de um só corpo, surgem, tal qual ervas de
uma rocha úmida, cabelos que são víboras e se contorcem e se estendem, e entrecruzam os seus nós,
e em infinitos rodeios mostram o seu esplendor metálico, quase escarnecendo da tortura e da morte
interior, e cortam o ar com suas mandíbulas rachadas.
E de uma pedra ao lado, um venenoso sardão se demora a espiar aqueles olhos gorgôneos, enquanto
no ar, atônito, um horrendo morcego é adejado fora da furna onde aquela amedrontadora luz
surpreendeu-o e se precipita como uma traça à luz; e o céu noturno relampeja de uma luz mais
amedrontadora que a escuridão.


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